O que preferir folhagens a flores pode me dizer sobre minha personalidade – uma análise.

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Foi numa sessão de terapia em uma segunda de manhã que tudo fez sentido. Minha terapeuta olhava pra mim com uma cara de interesse genuíno enquanto eu discursava sobre a horta que eu e Igor plantamos no fim de semana e sobre a minha paixão por plantas, e como tenho uma casa cheinha delas.
Depois de muito ouvir e me observar enquanto eu falava empolgada sobre tomates orgânicos, terra adubada e compostagem, ela levantou um dos dedos como se tivesse uma dúvida, mas esperou eu completar a frase.
Assim que terminei, ela perguntou: “Engraçado. Você me falou sobre as plantas que tem em casa e falou que não gosta de flores, e pelo que observei, você só tem folhagens em casa, não é?”, assenti, afinal, é verdade. Mas nunca tinha parado pra pensar nisso dessa forma.
E foi o que ela disse em seguida que fez minha cabeça explodir: “O que será que não querer ter flores em casa, somente folhas, pode nos dizer sobre sua personalidade?”.
Gênia! Essa mulher é uma gênia.
Parei pra pensar por alguns segundos, me olhando no espelho que fica atrás da cadeira dela, de frente pra mim (afinal, qual o objetivo desse espelho? Sempre quis saber).
Fiz rapidamente uma lista mental de todas as plantas que já tive e tenho em casa, e pude constatar que realmente não tenho nenhuma que tenha flores. Mas até então nunca tinha percebido isso.
Então comecei a responder. “Porque flores são delicadas, exigem mais dedicação do que folhas, talvez?”.
Ela assentiu, como se fosse exatamente isso que ela quisesse ouvir, mas me deu aquele olhar que ela sempre dá quando espera ouvir mais. “E…?”.
Fui mais fundo. “Acho que pode ter a ver com o fato de eu ser uma pessoa prática, e que não gosto de coisas que exigem muito de mim, o que talvez explique a minha dificuldade em ter compromissos e também a minha falta de disciplina.”.
Ela continuou assentindo. Se fosse uma prova, certamente eu estaria tirando 10. Esse pensamento me incentivou a continuar a análise.
“Minha mãe, por exemplo”, prossegui. “Ela adora flores, quanto mais colorida e complexa, melhor. E você e eu sabemos que ela é uma pessoa muito diferente de mim.”, lancei a ela um olhar de miga, você sabe, e ela retribuiu com um olhar de miga, to ligada, e continuei. “Ela é uma pessoa caprichosa, enquanto eu sou um pessoa meio desleixada. Se você for na minha casa, vai achar lindo um dos vasos da minha árvore da felicidade, que revesti com um tecido lindo. Mas se você olhar na parte de trás dele, vai ver que não me preocupei nem um pouco em continuar com o tecido atrás. Pra mim não faz diferença, afinal, quem vai olhar atrás do vaso de plantas? No canto que ele fica, só se vê de frente.”
Ela levantou uma sobrancelha, achando interessante, e rabiscou alguma coisa em seu bloquinho de papel. Acho muito intrigante quando ela faz isso.
“E a sua mãe? O que faria com o vaso de plantas?”, ela pergunta num tom desafiador.
“Ah! Enquanto eu gastei 10 minutos fazendo o meu, o dela levaria com certeza umas 2 horas, porque ela faria questão de medir o tecido corretamente, para ter certeza de que não faltaria na parte de trás. Depois, ela faria a bainha ao redor de todo o tecido, para ter certeza de que não desfiaria com o tempo. Aí então ela pesquisaria qual o melhor tipo de cola para esse tipo de material, e aí com a cola correta (que talvez ela tivesse que sair para comprar), ela colaria e descolaria quantas vezes fosse necessário para ficar perfeito.”.
“Você quer dizer que sua mãe é perfeccionista?”.
“Isso!”, grito. Essa palavra define tudo e eu não tinha conseguido encontrá-la ainda.
“É isso que eu não sou, perfeccionista. E acho que pessoas que gostam de flores têm mais tendência a serem, porque veja bem: manter flores não é uma tarefa fácil, elas são delicadas e temperamentais, e a maioria precisa de muito mais atenção que a maioria dos tipos de folhagens, que costumam ser mais resistentes.”.
Ela só concordava com a cabeça. Até que resolveu perguntar. “Qual a sua planta favorita?”
Essa é fácil, por isso respondi prontamente: “Jiboia”.
Ela balançou a cabeça positivamente e fez uma cara de quem acabou de descobrir a cura do câncer.
“As rainhas da resistência. Ficam dias sem água e se adaptam a quase todo tipo de ambiente.”
“Eu não me adapto a quase todo tipo de ambiente”, respondi, mesmo que não fosse uma pergunta.
“E por acaso eu disse que você é essa planta? Ou que gosta dessa planta?”, ela mandou no meio da minha cara. Toma.
“Que eu gosto. Verdade. Mas acho que tem algum fundamento. Afinal, por eu sempre ter sido uma pessoa tímida, realmente sempre gostei de pessoas extrovertidas e que me deixavam mais confortáveis socialmente.”
“Isso.” Ela concordou. “E o fato de você gostar tanto de uma planta tão resistente diz muito sobre a sua força interior, e com o fato de você não gostar de lidar com compromissos, visto que se esquecer de regar a jiboia por uma semana ela continuará lá, firme e forte. Diferente de muitos tipos de flores.”
Concordei, e fiquei em silêncio por alguns segundos, esperando ela continuar. O que não aconteceu.
Fiquei fazendo aquela cara de “Putz! Minha cabeça explodiu com toda essa informação. Preciso de tempo para me recompor.” que faço sempre que fico sem resposta ou quando ela faz uma pergunta longa demais que acabo esquecendo qual era.
O relógio marcou 10:40 e a campainha tocou. Ela pediu licença e saiu pra atender a porta.
Quando voltou, me disse: “Muita informação por hoje! Pense nisso.”
Nos despedimos e saí da sala, passando pela recepção, onde parei pra beber uma água.
Enquanto o copo enchia no filtro, pela primeira vez em todo o tempo que venho aqui, percebi um vaso de plantas em uma mesinha num canto. Uma jiboia enorme.
Mais uma vez senti um BOOM dentro de mim e saí do consultório com um sorrisinho no rosto, pensando sobre para quem aquela sessão foi mais esclarecedora.

manu22

Comentários

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8 comentários sobre “O que preferir folhagens a flores pode me dizer sobre minha personalidade – uma análise.

  1. Muito interessante essa sessão!
    Me identifiquei um pouco com essas características. Até gosto de flores, mas não consigo cuidar tão bem delas…
    Obrigada por compartilhar conosco sua experiência, Manu.

    Beijos

  2. Realmente somos diferentes nisso filha, mas com o tempo, voce aprende a gostar e ter paciência para cuidar. Eu adoro colorido, plantas que deem flores, tudo fica mais alegre.
    Adorei a conclusão desta fase da terapia.
    Parabéns pelo Blog.

  3. Oi Manu!
    Como os seu gatinhos se comportam com esse monte de galhinhos e folhinhas penduradas? Adoro plantinhas mas infelizmente os meus pequenos ficam enlouquecidos e arrancam tudo! Mantenho só na varanda que é um lugar onde eles só tem acesso supervisionado!
    Um bjão e parabéns pelo blog!

  4. AMEI o texto hehehe e também me identifiquei: só tive uma planta que dava flores (porque ganhei do meu namorado) e não existe mais 🙁 também amo jibóia, apesar de preferir aquelas com flolhas menores e mais cheinhas (como chama?).
    Bj

  5. Me identifiquei demais!! Não tanto com a Jiboia, kkkkk. Acho que sou um tanto quanto perfeccionista e gosto de muito detalhe… Mas, a forma como se encontrou e se definiu a partir de uma simples coisa, um simples “estilo” de coisa: uma planta! Incrível! Adorei a sua casa e, com toda a certeza, é uma grande inspiração para mim. Não mudaria exatamente nada nela! Incrível! Parabéns pelo blog, por ser maravilhosa!
    Grande abraço !!!

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